Friday, June 26, 2015

Fado Pesado




Deambular artístico pelo processo criativo...

Fado Pesado foi um tema que me chegou por telemóvel, em que João Jacinto, o autor (e vocalista), cantava o tema à capela para o microfone do celular e aguardava que eu opinasse sobre a exequibilidade de produzir algo com base no murmúrio anexo.

A "voltinha em ré" que escutei e a letra profunda, embora trágica, incentivaram a que me atirasse de cabeça a produzir o tema com o meu habitual sentido de humor místico, digno de entendimento apenas pelos Iniciados e Adeptos deste mundo... Mas fica aqui o registo de alguns dos ovos de Páscoa patentes descaradamente na produção...


O estilo

Sendo que é tecnicamente um Fado, e que a letra acaba por ser ressonante com um estado de almua contemporâneo, não foi ciência nuclear optar por um estilo popular. Dada a seriedade quase shakespeariana da letra, decidir evitar o quão fosse possível um estilo popular muito ligeiro - vulgo "popularucho" (para não dizer "pimba") - pouco adequado ao formalismo mas, ao mesmo tempo, quis deixar esse gosto no ar. O tempo, i.e. batidas por minuto, ligeiramente mais lento que um típico frenético dar ao pé, mas mais rápido que, digamos, um Fado de Coimbra foi o que melhor se adaptou a uma cadência emotiva do poema, intensa e quente. Respeito em homenagem à verdadeira natureza do Fado, autêntico, crú, intenso e directo.

Por toda a produção tentei honrar o espírito do poema dispensando distracções formuláicas como teria sido uma ponte/middle8, ou uma introdução de alguns compassos, prolongando e diluindo desnecessariamente o foque do tema, por muito bem que tal demonstrasse (ou não) os meus talentos sinfónicos e quebrasse alguma monotonia (em si um contrassenso psíquico com a sensação que se tenta passar, no fundo, a de tédio imensurável).

O ritmo atraente é por si próprio sarcástico, montado sem escrúpulos numa óptica comercial mas representando o quanto a humanidade vai dançando alegre e contente ao som da miséria alheia. O tema destina-se a transcender toda esta hipocrisia. É iniciático dentro do que pude(mos) fazer. Fica para a posteridade, aqui, registada a intenção, caso se atrevam alguma vez a estudar o tema cientificamente, blindando-o assim a intuições de alguns supostos "peritos" afligidos por profundas perturbação gastrointestinais, vulgo críticos (há alguns muitos bons e a estes dedico com agrado esta prosa).

Optei por um som electro-sintético mas com pesadas componentes seleccionadas acústicas, de peso, associadas a seriedade cerimonial (coro vocal sinfónico e órgão de tubos). Tal deixou de fora os típicos acordeões e metais mais facilmente associados a contextos mais ligeiros embora componentes de fácil digestão, como duas guitarras (muito discretas) a manter o contratempo, a linha de baixo típica de uma marcha de baile e um arpeggio de um vocoder (simbolizando o palavreado do quotidiano indiferente à angústia do narrador) lá estão para lhe dar um ar acessível quanto baste.

A presença do coro vocal torna-se óbvia na altura apropriada mas o som do órgão de tubos é subliminar, tendo sido manipulado de forma a começar como que a condensação de agudos celestiais portados até um baixo analógico rouco e ressonante "Moog'iano" sendo que esta transformação sónica simboliza o retirar da "energia" dos céus para que se manifeste algo físico na Terra, acabando quase que por metaforicamente fazer deste tema uma prece, uma quasi meta oração de lamentos (mas) cuja função é obter exactamente o oposto.

Chamem-lhe Electro-Folk Pop se Fado-num-sentido-muito-lato não chegar.


A voz, a letra, a intenção, os artifícios artísticos

A letra sugere algo primitivo, puro e desesperado, como que num clímax do ponto mais baixo possível. Quis por isso transmitir essa sensação de uma forma subliminarmente honesta. Optei por enveredar por uma sensação "live" de tipo ao vivo em tempo de guerra, e usar microfones dinâmicos deixando que o autor se aproximasse do microfone nos momentos mais emocionais.

Não foi fácil pegar numa voz potente e afinada como a de João Jacinto - e lidar com a sua personalidade perfeccionista e diligente - tentando que se conviesse a transmissão ocasional de um ar agreste e despido, sem pudor ou embaraço, vocalizando-o numa onda género "neo punk" embora cavalheira e domesticada, endurando num último fôlego, a sofreguidão, de pesada cabeça erguida, passando assim uma falsa alegria de um espírito abatido, que o poema do próprio sugere.

Incentivei aqui e ali dicções e entoações intencionalmente humanas, agarradas ao microfone como a um ombro, frequentemente despidas de uma óbvia e habitual caracterização sedosa de estúdio - e sendo que a voz não necessita de correcções electrónicas - para conseguir captar a performance como uma pintura impetuosa e não como uma fotografia ensaiada. Sensação essa que, fiz por espelhar, em toda a produção musical, ousadamente patente em alguns micro-pormenores descritos mais à frente. Usei apenas takes cuja linguagem corporal exprimiam angústia e sofrimento (o que, fechado num estúdio comigo, é compreensível).

Pelo meio de algumas sílabas simbólicas de "dor e sofrimento", todo o hino é entoado à tenor informal, por uma voz poderosa, quente e intensa,  que faz toda justiça à dinâmica de 24 bits que usei na captura e apelou a toda a compressão old-school que se seguiu...

Justiça seja feita à masterização de João Ganho que puxou por cada pormenor e detalhe de tal forma cirúrgica que se sente tal como pretendi o contraste ao longo do tema. Ocasionalmente agreste e muito próximo na voz e assepticamente limpo e espaçoso na orquestração circundante.

Notem os momentos:

Logo no início, nos primeiros compassos, meados segundos do primeiro verso, a palavra "Força" é acompanhada de um sopro de esforço, metáfora de résteas de entusiasmo animal, directo para o microfone. Está lá intencionalmente, para transmitir a sensação de fadiga e ímpeto no limite, do ultrapassar num último fôlego. Muitos audiófilos e produtores perfeccionistas vão estalar a testa ao inquirirem como deixei passar tal "pop" vocal mas, como diz Hans Zimmer, o contraste é tudo, e está lá tão subtil(mente) como um murro na cabeça. Ao longo da canção vou fazendo por passar outras pseudo-"incorrecções" de sopro, respiração e silábicas sempre com esta premissa, a de passar inconscientemente a sensação de perdido por 100, perdido por 1000, com algum ênfase na estridência dos agudos, metáfora de stress, embora comedidos.

Pouco depois, entra a segunda voz com a palavra "fugir" prolongada, embora surja timidamente a querer entrar pelo ouvido, mais uma vez para enfatizar o desejo de fuga embora coloque travão, durante a produção (compression, limiting e gating paralelos), na vocalização, para parecer quase afónico e sem forças. Aliás todo o conceito da segunda voz (e efeitos de prolongamento e antecipação stereo da principal) são o metafórico chegar aos céus da prece de lamentos, distorcida e tímida, em dissonância cognitiva típica.

A própria primeira voz foi multiplicada 4x a 6x, ultra subtilmente, no início de alguns compassos, discretamente realçada como que descrevendo o diálogo interior contraditório mas paradoxalmente confirmando a unanimidade causal na direcção da angústia.

Entra o ritmo, batida pesada, binária tipo um respirar compenetrado yin e yang, simples mas primordial, como são aqui os acordes sem dissonância, primário e visceral como que o martelar do destino (do ponto de vista de engenharia de som, a batida não está tão alta como soa, teria abafado a voz, o efeito é psicoacústico, "haas effect" para aqueles do meio) e os pratos ligeiramente dentro e fora de tempo, arritmicamente ansiosos, mais uma vez para ilustrar a dificuldade em acompanhar as circunstâncias. O efeito é subtil e exige alguma atenção mas são subconscientemente evidentes. A batida (tarola) não bate uma única vez dentro do tempo, apenas o bombo, mas com um coxo quase sincopado a cada voltinha, certinho e direitinho vai tropeçando no timbalão a cada final de compasso, ressalvando a ideia de esforço prolongadamente ingrato.

A cada fim de verso um padrão rítmico de ping-pong latino simboliza a mecânica astrológica e causal da manifestação física matemática do estado mental, a alegoria da escolha versus fatalismo do destino (fado anyone?), com grande componente inconsciente e socialmente programada, sendo por isso, constrastemente certinho em cada batimento.

Já mais à frente a palavra "cruz" na primeira voz é intencionalmente arrastada e sibilada no longo final ressuscitado num "x" de antecipação de fôlego, para sublinhar o peso prolongado e incómodo (de uma cruz, uma via sacra), a desesperada esperança, obrigando ao discurso esforçado no tempo. Note-se, por exemplo, que também se prolonga a palavra "luz" mas sem a ressuscitar no final como o tal "sh", na mente da letra, a luz não tem (ainda) peso algum, é um sonho inatingível.

O refrão é a catarse, o grito de libertação do autor. Precede-o um discreto "lá lá lá", escadaria da "oração aos céus", e no seio do mais atormentador desespero que surge uma réstea corajosa de um grito de liberdade. E foi com algum sadismo que abafei qualquer tentativa de escapar calando o berro com um coro sinfónico clássico colossal, símbolo da escuta celestial da prece pela corte angelical, e como que a querer que o autor transcenda as palavras terrenas, quase as silenciando, no sentido de implorar que se sintonize com o celestial, surge o ensurdecedor coro divino para que entenda a ilusão na base dos lamentos mundanos. Daqui em diante uma etérea textura sónica tipo "ohh" coral vai colorindo os versos como que numa analogia de que a prece atinge o Eu superior, representando a transcendência iminente que se vai imiscuindo muito embora, de forma antagónica, contra-pesando os efeitos eventuais futuros positivos físicos paradoxais em tanta contradição mental (o que se percepciona, fruto da interpretação, versus o que se deseja, fruto do que se é, com ênfase errónio nas consequências ignorando convenientemente as auto-infligidas causas responsabilizando as imperceptíveis auto-infligidas consequências por sua vez baseadas noutras errôneas auto-percepções com base num  meio social mergulhado em ilusões auto perpetuadas - passo este período filosófico esotérico profundamente confuso, desconexo e entediante).

A música segue com menos metáforas acústico-literárias mas mais uns ovos de Páscoa se escondem na continuidade e, não referindo todos,, repare-se, quando se vocaliza "pretérito imperfeito", que surge acompanhado de um pequeno nano-defeito intencional na mistura muito rápido, muito muito subtil, mais uma vez, apelando ao inconsciente e ao desejo de perfeição não atingido... E o clamar cantado de "sem voz" é colorido, na segunda voz, por uma propositada e pós-processada sensação afónica de ausência de fôlego.

O refrão final tenta ainda mais teimar no discurso terreno, apoiado por uma segunda voz discreta, mas não consegue calar os anjos (metáfora do coro clássico) que terminam sozinhos o tema, relaxadamente, sendo que, a analogia é a de que a alma chorosa consegue finalmente passar a um nível em que percebe o que a realidade realmente é, e então cessa o sofrimento, e por isso, o final rápido e sem desculpas, como que deixando perceber a continuidade da serenidade e o quão os céus se estão nas tintas para a fantasia que o ego interpreta a realidade como sendo...

Não é acidental que o coro se pronuncie em séries de três no primeiro refrão  (representando o mundo ain, ain soph, ain soph aur e a trindade do mundo das ideias divino) e no segundo passe a se duas (os opostos polares de severidade e misericórdia, Ida e Pingala, o dualismo do mundo físico) voltando no final a um relaxado trino manifestando um "rubedo" equilíbrio médio, mecânico e sem qualquer tipo de julgamento, de uma realidade coerente com o estado de espírito e de um estado mental iluminado pronto a alterá-la.

É este constante equilíbrio que forço, imitando a natureza, entre contrastes patentes mas numa harmonia maior que eles que, espero, torne a música atraente.

Em suma, uma produção clinicamente "perfeita" seria de certa forma desrespeitar a letra. É nas intencionais ditas "imperfeições" que tento passar "perfeitamente" a angústia absoluta e dilacerante que o poema descreve. Orgânico na essência e híper-processado/dirigido no sentido de o realçar é a melhor definição do processo.

Tendo dito isto, não foi de modo nenhum, no entanto, descurada a acuidade sónica audiófila de todo o contexto musical, merecendo crédito o estúdio de referência mundial em audiofilia "O Ganho do Som".

Agradeço a pessoas como o João Jacinto e o João Ganho permitirem a minha indulgência controversa, irreverente e intencionalmente impressionista e lhe adicionarem um profissionalismo e técnicas invulgarmente topo de gama arriscando conotações mais permissivas do ponto de vista académico e lhe generosamente acrescentarem tanto valor. E um piscar de olho a João Ganho por deixar tanta dinâmica transparecer em tempos de loudness wars. Permitiram ambos uma pintura, de traços honestos irracionais subliminarmente surrealistas, e deixar que uma fotografia clínica, higiénica e documental, distante e fria fique, (também) digna das suas competências obcessivamente perfeccionistas, para uma segunda ou terceira versão em surround 192/24 multicanal para coisos hdmi 2.0... sendo eu o primeiro candidato (a captura e processamento nativos foram em 192 kHz, e a mistura/fx rendering em 64 bits).

E numa alegoria artístico-filosófica, arriscaria descrever o contexto como um Peixe Aquariano banhado em Neptuno num meio Virgiano Capricórnico Jupiteriano num jacuzzi venuziano com Marte observando atentamente ao longe, combinação artística digna de um ensaio de Gurdjieff.

Cito uma clássica referência que diz "quem tiver ouvidos que ouça". Recomendo que se ouça mas que se "ouça" mesmo. Tal como uma tela, a cada ângulo emocional, revelará mais detalhes. Depois desta explanação prolongada embora resumida e sem tudo incluir, considerem-se Iniciados. Deixo a letra em Post Scriptum, e logo após o dito, podem comentar se o desejarem. Obrigado.

Abraços e Beijos,
AMR
http://www.alvaromrocha.com

P.S.:

Fado Pesado
Letra e Música: João Jacinto
Produção, Orquestração, Audio Design, Performance, Direcção e Mistura: Álvaro M. Rocha
Masterização: João Ganho

"
Sou pedaço de vida
deitado na sombra
de uma multidão,


sou força vencida,
mergulhada e perdida
em desilusão.


Sou dor viciada
em choro e pranto,
sem poder fugir,


sou no sofrimento
o espelho do tempo,
sem nunca o medir.


Sou um rosto secreto
e incompreendido
na palavra sim,


sou um resto de gente,
vergado ao silêncio,
não se riam de mim.


Sou povo enjeitado,
em nudez de encanto,
carrego minha cruz,


sou um fado pesado,
compasso trinado,
um canto sem Luz.


Se digo o que sinto,
se minto no que sou,
não o faço por querer,
não me disfarço, nem me escondo,
no falso sentido
do que acabo por ser.


Se me dou e me desfaço,
se luto esquecido
vivo insatisfeito,


sou no cinzento tristeza,
verbo conjugado;
pretérito imperfeito.


Sou um rio parado,
sem margens, sem leito,
sem fundo, sem foz...


Uma barca sem remos,
sem redes, sem leme,
sem velas, sem nós...


Sou tarde poema,
de versos sem rima,
lenta de se pôr,


por entre o nevoeiro,
o que desaparece
e se apaga de cor.


Sou um resto de gente,
o que falta do início,
um caminho para o fim,


vergado ao silêncio,
vergado ao silêncio,
não se riam de mim.


Se digo o que sinto,
se minto no que sou,
não o faço por querer,
não me disfarço, nem me escondo,
no falso sentido
do que acabo por ser.

"



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